top of page

Guerra híbrida, defesa e negócios: por que a insegurança já afeta a economia global

Foto do escritor: Rodrigo Alves
Rodrigo Alves
há 1 dia
10 min de leitura

Negócios | Geopolítica e economia

Governos europeus passaram a recomendar preparação para crises, enquanto ciberataques, cabos submarinos e a dependência de Taiwan em semicondutores expõem a fragilidade das cadeias produtivas.

Leitura de 10 minutos

A disputa geopolítica passou a envolver não apenas exércitos, mas também cadeias de suprimentos, energia, dados e infraestrutura. Imagem gerada para esta publicação.
A disputa geopolítica passou a envolver não apenas exércitos, mas também cadeias de suprimentos, energia, dados e infraestrutura. Imagem gerada para esta publicação.

Governos europeus recomendando que a população tenha comida, água e itens básicos para atravessar os primeiros dias de uma emergência; exercícios envolvendo defesa civil e forças militares; discussões sobre ataques cibernéticos, sabotagem e cabos submarinos; e a possibilidade de uma crise simultânea envolvendo Rússia, China, Estados Unidos e Taiwan.

Mas há uma parte objetiva por trás do tom alarmado. A segurança deixou de ser um assunto restrito a diplomatas e generais. Ela passou a influenciar decisões de investimento, seguros, logística, tecnologia, energia, indústria e planejamento empresarial. A pergunta relevante para o mundo dos negócios não é se uma guerra mundial está prestes a começar. Não há evidência pública suficiente para afirmar isso. A pergunta é outra: o que acontece quando empresas e governos precisam operar em um ambiente no qual crises militares, cibernéticas, comerciais e políticas se misturam?

A resposta começa pela mudança no conceito de risco. Durante décadas, muitas companhias trataram estabilidade geopolítica como uma condição quase permanente. Era possível concentrar a produção em poucos países, depender de rotas marítimas eficientes, comprar componentes de um fornecedor dominante e trabalhar com estoques relativamente enxutos. Esse modelo reduziu custos, mas também concentrou vulnerabilidades.

Agora, a eficiência pura está sendo substituída por uma combinação mais cara de eficiência e resiliência. Ter dois fornecedores pode ser mais caro do que ter um. Manter estoques maiores imobiliza capital. Produzir perto do mercado consumidor pode elevar o custo unitário. Ainda assim, essas alternativas podem evitar uma paralisação completa quando uma fronteira fecha, um porto é interrompido, um sistema digital é invadido ou uma sanção muda as regras do comércio.


O que a Europa está fazendo — e o que isso realmente significa

A União Europeia adotou, em março de 2025, uma estratégia de preparação para crises. O documento não trata apenas de uma possível invasão militar. Ele adota uma abordagem ampla, que inclui tensões geopolíticas, cibersegurança, manipulação de informação, mudanças climáticas e desastres naturais.

Entre as medidas previstas está a orientação para que a população alcance uma autossuficiência mínima de 72 horas. Isso não equivale a dizer que a Comissão Europeia espera uma guerra iminente. A lógica é semelhante à de um seguro: uma preparação básica pode reduzir o impacto de diferentes tipos de crise, desde um apagão e uma enchente até uma interrupção de abastecimento ou uma emergência de segurança.

A recomendação também mostra como mudou a ideia de defesa. Uma sociedade resiliente precisa manter hospitais, água, energia, telecomunicações, transportes e governo funcionando mesmo sob pressão. O setor privado é parte central dessa equação, porque boa parte da infraestrutura crítica é operada por empresas.

A OTAN descreve a resiliência civil como a capacidade de preparar, resistir, responder e se recuperar rapidamente de choques. A organização afirma que a preparação civil tem três funções básicas: garantir a continuidade do governo, manter serviços essenciais para a população e apoiar operações militares.

Os números ajudam a dimensionar a dependência entre defesa e economia. Segundo a OTAN, aproximadamente 90% do transporte militar de grandes operações é fornecido por ativos civis contratados ou requisitados. Mais de 70% das comunicações por satélite usadas para defesa vêm do setor comercial. Cerca de 95% do tráfego transatlântico de internet passa por cabos submarinos de fibra óptica, em grande parte pertencentes e operados por empresas privadas.

Para uma companhia, isso significa que a gestão de risco não pode ficar limitada ao prédio, à fábrica ou ao data center. Uma interrupção em um fornecedor de nuvem, em uma operadora de telecomunicações, em uma empresa de logística ou em uma rota marítima pode afetar a operação mesmo quando os ativos próprios continuam intactos.


Guerra híbrida: o conflito que não precisa começar com um míssil

O termo “guerra híbrida” é usado de maneiras diferentes, mas há um núcleo comum: a combinação de instrumentos militares e não militares, abertos e clandestinos, para pressionar ou desestabilizar um adversário. Isso pode envolver desinformação, pressão econômica, espionagem, ataques cibernéticos, sabotagem, interferência política e uso de grupos intermediários.


Um relatório do Congressional Research Service, órgão de pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, descreve atividades atribuídas a agentes russos na Europa que incluem sabotagem, assassinatos, interferência política, ciberataques, violações de espaço aéreo, bloqueio de sinais de GPS e danos a infraestruturas subaquáticas. O relatório também destaca a ambiguidade de autoria: muitas operações são desenhadas para dificultar a atribuição definitiva e limitar a resposta do alvo.


Essa ambiguidade é importante para os negócios. Um ataque convencional costuma produzir uma reação política mais clara. Já uma interrupção digital, uma campanha de desinformação ou um dano a um cabo submarino pode ser tratado inicialmente como acidente, crime comum, falha técnica ou incidente isolado. Enquanto governos investigam, empresas enfrentam perdas concretas: serviços fora do ar, contratos atrasados, clientes desconfiados e aumento dos custos de segurança.


O relatório de 2026 do ENISA, a agência de cibersegurança da União Europeia, analisou 4.875 incidentes observados entre julho de 2024 e junho de 2025. Ataques distribuídos de negação de serviço, conhecidos como DDoS, representaram 77% dos incidentes registrados. O ransomware foi apontado como a ameaça de maior impacto, enquanto phishing e exploração de vulnerabilidades apareceram como os principais pontos de entrada.


O dado mais relevante para as empresas talvez seja a concentração de alvos. A administração pública respondeu por 38,2% dos setores atingidos, mas transporte, infraestrutura digital, finanças e manufatura também aparecem entre os mais visados. O problema não termina na empresa diretamente atacada. Em uma economia conectada, um incidente pode se espalhar pela cadeia de fornecedores, afetando clientes, distribuidores e parceiros.

Cibersegurança, energia, telecomunicações e transporte formam uma mesma superfície de risco quando as infraestruturas estão interligadas. Imagem gerada para esta publicação.
Cibersegurança, energia, telecomunicações e transporte formam uma mesma superfície de risco quando as infraestruturas estão interligadas. Imagem gerada para esta publicação.

Inteligência artificial amplia a velocidade — para empresas e criminosos

A inteligência artificial adiciona uma nova camada ao problema. Sistemas de IA podem ajudar empresas a detectar anomalias, responder a incidentes e organizar grandes volumes de alertas. Ao mesmo tempo, podem ser usados para produzir mensagens de phishing mais convincentes, automatizar engenharia social e pesquisar vulnerabilidades em escala.

O ENISA afirma que grupos maliciosos já utilizam ferramentas de IA para melhorar campanhas de phishing e automação de engenharia social. A agência também chama atenção para ataques à própria cadeia de fornecimento de IA. Isso significa que o risco não está apenas no modelo usado por uma empresa, mas também nos dados, bibliotecas, APIs, provedores de nuvem e componentes que sustentam o sistema.

Um caso de um freezer desligado, não precisa ser confirmado como operação de Estado para ilustrar uma lição empresarial: objetos cotidianos podem estar conectados a sistemas relevantes. Um freezer comercial, uma câmara frigorífica, um controlador industrial ou um equipamento hospitalar podem se tornar pontos de entrada para uma interrupção maior se estiverem mal protegidos.

Por isso, a resposta não deve ser comprar tecnologia por impulso. Empresas precisam mapear quais serviços são realmente críticos, quem tem acesso a eles, quanto tempo conseguem operar manualmente e quais fornecedores concentram mais risco. A pergunta “temos backup?” é insuficiente. É preciso saber se o backup está isolado, se pode ser restaurado e se a organização já testou esse processo.


Taiwan: o risco econômico escondido em um pequeno território

O segundo eixo do debate é Taiwan. A ilha ocupa posição central na fabricação de semicondutores avançados, componentes presentes em smartphones, computadores, veículos, sistemas industriais, equipamentos de telecomunicações e aplicações de inteligência artificial.

Um estudo da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos estimou que, em 2021, cerca de 44,2% das importações americanas de chips lógicos eram fabricadas em Taiwan. Em um cenário hipotético de grande interrupção da produção taiwanesa, o estudo calculou que o preço dos chips lógicos poderia subir até 59% para produtores americanos, enquanto a produção doméstica aumentaria apenas cerca de 5% devido às restrições de capacidade.

Esses números não são uma previsão de guerra. São uma simulação para medir vulnerabilidade. A conclusão é direta: mesmo uma economia grande e tecnologicamente avançada não conseguiria substituir rapidamente a oferta perdida. Construir fábricas de semicondutores leva anos, exige energia e água em grande quantidade e depende de equipamentos, mão de obra e fornecedores especializados.

A própria TSMC informou em seu relatório anual de 2025 que fabricou 12.682 produtos diferentes para 534 clientes e administrou capacidade superior a 17 milhões de wafers equivalentes de 12 polegadas. A empresa também registrou que tecnologias de 3 nanômetros representaram 24% de sua receita de wafers no ano. A escala mostra por que a diversificação geográfica é desejável, mas difícil de executar rapidamente.

Para consumidores, um choque em Taiwan poderia aparecer como atraso na entrega de eletrônicos, aumento de preços e menor disponibilidade de veículos e equipamentos. Para empresas, os efeitos seriam mais amplos: revisão de contratos, busca emergencial por componentes alternativos, pressão sobre capital de giro, mudanças em projetos de produto e disputa por capacidade de produção.

Há também um efeito financeiro. Quando a percepção de risco sobe, investidores exigem maior retorno para financiar projetos em regiões consideradas vulneráveis. Seguradoras recalculam prêmios. Bancos podem impor condições mais rigorosas. Empresas com receitas concentradas em uma única região passam a ser avaliadas com desconto. Geopolítica, nesse sentido, entra no balanço patrimonial.

A concentração da produção de chips avançados em Taiwan transforma uma questão regional em um risco para tecnologia, indústria e consumo em todo o mundo. Imagem gerada para esta publicação.
A concentração da produção de chips avançados em Taiwan transforma uma questão regional em um risco para tecnologia, indústria e consumo em todo o mundo. Imagem gerada para esta publicação.

China: crescimento, excesso de capacidade e pressão por novos mercados


A questão de Taiwan à necessidade de a China encontrar uma nova fonte de legitimidade política. Essa é uma interpretação analítica, não um fato comprovado. É prudente separar os elementos.

O fato econômico é que a China enfrenta uma transição complexa. O Fundo Monetário Internacional afirma que a economia chinesa continua resiliente e foi responsável por cerca de 30% do crescimento global nos três anos anteriores à sua avaliação de 2026. Ao mesmo tempo, o organismo aponta desafios ligados à crise imobiliária, ao endividamento, à confiança dos consumidores e à necessidade de reequilibrar o crescimento em direção ao consumo doméstico.

O debate sobre excesso de capacidade industrial também ganhou força. Quando a produção cresce mais rápido do que a demanda doméstica, empresas podem buscar mercados externos para escoar estoques. Isso pressiona preços, provoca reações comerciais e aumenta a disputa por setores como veículos elétricos, baterias, painéis solares e máquinas.

Não é correto concluir automaticamente que dificuldades econômicas levam um governo a iniciar uma guerra. A relação entre economia e política externa é mais complexa. Uma liderança pode usar nacionalismo para reforçar apoio interno, mas também pode evitar uma crise militar justamente porque conhece seus custos econômicos. Um conflito no Estreito de Taiwan afetaria comércio, finanças, tecnologia e energia, inclusive para a própria China.

Para executivos, a implicação não é apostar em um único cenário. É construir planos que funcionem em vários níveis de tensão: restrições de exportação, tarifas, sanções financeiras, bloqueios logísticos, ataques digitais ou interrupção prolongada de fornecedores. A organização que só se prepara para o “pior caso” pode gastar demais; a que não se prepara para nenhum caso pode ficar sem opções.


O que muda nas decisões de negócios

A primeira mudança é a revisão da cadeia de suprimentos. Empresas devem identificar componentes sem substituto rápido, fornecedores concentrados em uma mesma região e rotas que dependem de um único porto, canal ou cabo. O objetivo não é eliminar toda dependência — isso seria inviável —, mas saber onde uma interrupção teria efeito desproporcional.

A segunda é tratar cibersegurança como continuidade operacional, e não apenas como área de tecnologia. O conselho de administração precisa entender quais sistemas param a fábrica, interrompem pagamentos, impedem entregas ou expõem dados de clientes. Segurança precisa aparecer em decisões de aquisição, integração de sistemas, contratação de terceiros e desenho de produtos conectados.

A terceira é atualizar contratos. Cláusulas de força maior, sanções, interrupção de fornecimento, proteção de dados e comunicação de incidentes precisam refletir um mundo mais instável. Também é importante definir quem tem autoridade para decidir durante uma crise. Uma resposta lenta pode custar mais do que o incidente original.

A quarta é considerar estoques e redundância como investimento. Estoque adicional não deve ser criado de forma indiscriminada. Ele deve ser calculado a partir do tempo necessário para encontrar alternativa, do impacto de uma parada e do custo de manter capital parado. Em setores críticos, dois fornecedores parcialmente redundantes podem ser mais valiosos do que um fornecedor barato e altamente eficiente.

A quinta é investir em comunicação. Guerra híbrida também disputa confiança. Uma empresa que comunica mal um vazamento, uma falta de produto ou uma interrupção de serviço pode transformar um problema operacional em crise reputacional. Mensagens claras, verificáveis e rápidas ajudam a reduzir rumores e a proteger relações com clientes, funcionários, fornecedores e investidores.


Checklist para empresas

  • Mapeie os cinco fornecedores e serviços cuja interrupção causaria maior dano.

  • Calcule por quantos dias a operação consegue funcionar sem sistemas digitais críticos.

  • Teste restauração de backups e planos de operação manual.

  • Revise dependências de Taiwan, China, Rússia, rotas marítimas e provedores de nuvem.

  • Inclua cenários de ciberataque, sanção, tarifa, apagão e interrupção logística no planejamento.

  • Defina porta-vozes e procedimentos de comunicação durante uma crise.


Preparação não é alarmismo

O ponto mais importante do debate é evitar dois erros simétricos. O primeiro é tratar qualquer alerta governamental como prova de que uma guerra global está marcada para começar. O segundo é ignorar sinais objetivos porque previsões anteriores não se confirmaram.

Preparar uma casa para 72 horas não significa acreditar que o mundo vai acabar. Da mesma forma, diversificar fornecedores não significa prever uma invasão. Significa reconhecer que sociedades e empresas operam em sistemas interdependentes, nos quais uma perturbação pequena pode gerar efeitos grandes.

A economia global não está necessariamente à beira de um colapso. Ela, porém, está menos tolerante a choques. O custo de segurança aumenta, cadeias são redesenhadas, governos voltam a discutir estoques estratégicos e empresas precisam equilibrar preço com continuidade. Essa é a principal conexão entre geopolítica e negócios.

A previsão de abandono de Taiwan pelos Estados Unidos, a inevitabilidade de uma escalada russa ou a ideia de que a guerra seria usada como saída para problemas econômicos chineses — devem ser tratadas como hipóteses, não como fatos. A análise responsável começa quando se separa o que foi documentado do que é interpretação.

Para o público geral, a lição é prática: acompanhar fontes confiáveis, desconfiar de vídeos que apresentam cenários como certezas e entender que segurança também envolve energia, dados, alimentos, medicamentos, pagamentos e empregos. Para as empresas, a lição é ainda mais concreta: a resiliência deixou de ser um tema de reputação e passou a ser uma condição de sobrevivência operacional.


Para continuar a leitura


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page